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Estudante de Direito pede boicote a empresas que apoiam “influenciadores bandidos”, mas divulga acusada em processo por homicídio e gera debate sobre coerência

Foto publicada pelo site G1 globo.

Uma publicação feita pela estudante de Direito nas redes sociais passou a repercutir e levantou um intenso debate sobre coerência entre discurso e prática.

Em seu perfil, a estudante de direito criticou empresas que contratam influenciadores envolvidos em crimes e defendeu que consumidores deixem de comprar de marcas que patrocinam esse tipo de pessoa.

Na publicação, ela afirma:

“Toda vez que uma empresa escolhe contratar um influenciador bandido, ela faz mais do que uma ação de marketing: ela ajuda a manter essa pessoa em evidência e transforma audiência em lucro.”

Na sequência, acrescenta:

“Prestigiar empresas que investem em pessoas íntegras e deixar de consumir aquelas que normalizam esse tipo de comportamento é uma forma legítima de exercer cidadania.”

Ao final, faz um apelo direto aos consumidores:

“Parem de comprar de lojistas que apoiam bandidos influenciadores.”

A definição de “bandido”

Além da crítica às empresas, a estudante de direito também procurou explicar o significado da palavra “bandido” em sua publicação.

Segundo ela:

“Bandido = é um indivíduo que comete crimes, desrespeita as leis vigentes ou vive à margem da sociedade.”

Ela ainda acrescenta:

“O termo também é frequentemente usado de forma figurada para se referir a alguém sem escrúpulos ou de má índole, e em contextos informais ou afetivos, pode assumir um tom brincalhão, sarcástico e claro normalizando ações.”

Ao final do texto, resume em uma única palavra:

“Manipuladores.”

A explicação chamou atenção porque amplia o conceito para além do aspecto jurídico, atribuindo ao termo também um significado moral e comportamental.

A aparente contradição

Após a publicação, diversos usuários das redes sociais passaram a apontar uma aparente incoerência entre o discurso adotado pela estudante de direito e suas próprias escolhas.

O motivo é que, ao mesmo tempo em que pede o boicote a empresas que dão espaço para pessoas que ela própria classifica como “bandidos influenciadores”, a estudante de direito divulga e mantém proximidade com Thage Mourthe Ramos, que responde a um processo criminal relacionado à morte de Francisco Gefferson Xavier Silva.

Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Goiás, Thage foi denunciada por suposta participação nos fatos que culminaram na morte da vítima. 

O crime investigado

De acordo com a investigação da Polícia Civil de Goiás, o caso teve início após um conflito trabalhista envolvendo Francisco Gefferson Xavier Silva.

Segundo a investigação, a vítima havia sido desligada do emprego e passou a cobrar direitos trabalhistas que entendia serem devidos. Ainda conforme a polícia, Francisco incentivava outros ex-colegas de trabalho a também buscarem seus direitos na Justiça do Trabalho.

As investigações apontam que pessoas envolvidas no caso teriam contratado terceiros para dar uma “surra” na vítima mediante pagamento.

Durante a execução da agressão, porém, Francisco foi atingido por diversos golpes de faca. Mesmo tentando buscar socorro em um estabelecimento próximo, não resistiu aos ferimentos e morreu.

No decorrer das investigações, Thage foi apontada como uma das pessoas que teriam participado da dinâmica dos fatos, razão pela qual foi denunciada pelo Ministério Público juntamente com outros investigados.

Prisão durante as investigações

Durante a fase investigativa, Thage chegou a ser presa.

Posteriormente, passou a responder ao processo em liberdade.

A prisão ocorreu durante as investigações e não representa condenação definitiva.

O processo continua em andamento

O caso ainda não possui decisão definitiva.

Na primeira instância, o juiz responsável pelo processo decidiu pela impronúncia de Thage, entendendo que não existiam indícios suficientes de sua participação para submetê-la ao Tribunal do Júri.

O Ministério Público de Goiás recorreu da decisão.

Ao julgar o recurso, o Tribunal de Justiça de Goiás reformou a decisão de primeiro grau e pronunciou Thage, determinando que ela seja submetida a julgamento pelo Tribunal do Júri.

A defesa, entretanto, recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), buscando reverter essa decisão.

Assim, o processo permanece em tramitação e ainda não existe condenação definitiva.

O debate nas redes sociais

As críticas dirigidas pela estudante de direito, não dizem respeito ao mérito do processo criminal, que ainda será decidido pelo Poder Judiciário.

O principal questionamento levantado nas redes sociais é a coerência entre o discurso adotado por ela e suas próprias atitudes.

Para os críticos, ao afirmar que empresas não deveriam contratar influenciadores envolvidos em crimes e incentivar um boicote aos estabelecimentos que mantêm esse tipo de parceria, a estudante de direito passou a defender um padrão ético bastante rigoroso.

Entretanto, segundo esses usuários, esse mesmo critério não estaria sendo observado quando ela própria divulga uma pessoa que responde a uma ação penal de grande repercussão.

Dois pesos e duas medidas?

A repercussão fez surgir uma série de questionamentos.

Se empresas devem ser responsabilizadas pelas pessoas que escolhem divulgar, o mesmo entendimento também deveria ser aplicado a quem promove ou mantém parceria com pessoas que respondem a processos criminais?

Essa é a principal discussão levantada por quem criticou a publicação.

Na visão desses usuários, quem assume um discurso público de responsabilidade social inevitavelmente também passa a ser cobrado pela coerência entre aquilo que diz e aquilo que faz.

Presunção de inocência

Por outro lado, também há quem sustente que responder a um processo criminal não significa culpa.

A Constituição Federal assegura que toda pessoa é presumida inocente até o trânsito em julgado de eventual condenação.

Assim, embora Thage responda à ação penal, tenha sido presa durante as investigações e atualmente esteja pronunciada para julgamento pelo Tribunal do Júri, sua responsabilidade criminal ainda será definida pela Justiça.

Reflexão

Independentemente do resultado do processo, a publicação acabou provocando um debate que vai além do caso criminal.

Ao defender que empresas deixem de apoiar pessoas que considera “bandidos” e ao definir esse termo como indivíduos que cometem crimes, desrespeitam as leis, vivem à margem da sociedade, além de associá-lo a pessoas “sem escrúpulos”, “de má índole” e “manipuladoras”, a estudante de direito estabeleceu um parâmetro rigoroso para avaliar terceiros.

Foi justamente esse parâmetro que levou parte dos usuários das redes sociais a questionar se suas próprias escolhas seguem o mesmo critério que ela passou a exigir das empresas.

Ao mesmo tempo, apoiadores de Thage afirmam que ninguém deve ser rotulado como “bandido” antes de uma decisão definitiva da Justiça. Eles sustentam que, embora o processo seja grave e ainda esteja em andamento, a Constituição garante a presunção de inocência e o direito ao devido processo legal, cabendo exclusivamente ao Poder Judiciário definir a responsabilidade penal da acusada.

Enquanto isso, a repercussão da publicação demonstra como posicionamentos públicos sobre ética e responsabilidade costumam ser submetidos ao mesmo nível de cobrança que seus próprios autores direcionam aos demais. O caso transformou uma postagem nas redes sociais em uma discussão mais ampla sobre coerência, responsabilidade, presunção de inocência e os limites entre o julgamento da opinião pública e aquele que cabe à Justiça.

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